Psicóloga Roberta Monteiro concede entrevista ao Diário de Pernambuco: Mais atenção aos autistas, destacando a importância do suporte familiar e escolar

Psicóloga Roberta Monteiro concede entrevista ao Diário de Pernambuco: Mais atenção aos autistas, destacando a importância do suporte familiar e escolar

Mais atenção aos autistas. Psicóloga especialista destaca importância do suporte familiar e escolar

No Brasil, 90% dos diagnosticados não participam de atividades terapêuticas, consideradas fundamentais para o desenvolvimento e a qualidade de vida

Por Alice Souza – Publicação: 06/04/2015

Psicóloga especialista em autismo Roberta Monteiro avalia os ganhos sociais dois anos depois de instituída a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista
Em todo o mundo, pelo menos 2 milhões de pessoas têm dificuldades em entender a comunicação não verbal e saber exatamente o que o interlocutor espera delas. São os diagnosticados dentro dos Transtornos do Espectro Autista (TEA), população crescente em todo o mundo – a estimativa atual é de um caso para cada 68 pessoas -, mas que em sua maioria ainda não tem acesso a tratamento. No Brasil, 90% dos diagnosticados não participam de atividades terapêuticas, consideradas fundamentais para o desenvolvimento e a qualidade de vida. No último dia 2, foi comemorado o Dia Internacional de Conscientização do Autismo, uma mobilização mundial para um olhar mais atento a essa parcela da população. Em entrevista ao Diário, a psicóloga especialista em autismo e uma das responsáveis pela clínica Somar, Roberta Monteiro, destaca a importância do apoio familiar e escolar para permitir a progressão da criança autista e os ganhos sociais dois anos depois de instituída a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
“O autismo não está mais enclausurado”

O número de autistas cresce ao longo dos anos. Há 12 anos, uma em cada 1,5 mil pessoas era diagnosticada como autista. Hoje em dia, nos Estados Unidos, já se fala em um caso para cada 68 nascidos. Existe uma explicação para esse crescimento?
Hoje, além de os profissionais estarem se capacitando mais, a gente teve o desenvolvimento da neurologia infantil, psiquiatria e neuropsicologia, que são áreas de desenvolvimento importantes para o diagnóstico. Antigamente, uma criança autista era aquela que tinha todas as características do quadro. Agora, as crianças tendo algumas dessas características, estão dentro do diagnóstico, falamos em espectro. Com o desenvolvimento da ciência e com menos rigidez na inclusão do enquadramento dessas crianças no espectro, a quantidade de diagnósticos também cresceu.

Esse crescimento de casos é considerado positivo ou negativo?
Positivo porque, de alguma forma, essas crianças estão sendo acompanhadas e trabalhadas no intuito de maior estimulação. Antes passavam despercebidas características singulares, mas que não fogem de um quadro que precisa de ajuda, suporte, para o desenvolvimento. Como não eram características muito significativas, passavam batidas. Essas crianças só apresentavam maior dificuldade em idade mais avançada. Atualmente se consegue trabalhar o desenvolvimento dos pacientes em cima da intervenção precoce.

A intervenção precoce é vista como um grande trunfo no desenvolvimento dos autistas?
Uma criança com 2 anos tem um repertório de aquisições pequeno. Então, se o trabalho começa nessa idade, é mais fácil conseguir uma aproximação dos seus pares. Além disso, tem a plasticidade cerebral, a capacidade do cérebro de se desenvolver e absorver informações novas. Quanto mais cedo essa criança recebe intervenção, mais fácil vai ser para ela apreender esse conteúdo e usar em benefício de si. A gente trabalha não só pensando no repertório da idade. Se uma criança que não fala inicia o trabalho de intervenção, é mais fácil ela conseguir chegar mais rápido ao conteúdo de dois anos, do que se ela procurar depois.

Qual a importância da participação familiar no tratamento de um autista?
A família é tão importante quanto o pediatra e a escola. A criança vai mensalmente ao médico nos primeiros anos de vida e precisa fazer uma avaliação de desenvolvimento. Então, é possível saber quando algo está fugindo do que chamamos de desenvolvimento típico. O mesmo acontece na escola. Hoje é normal a criança estar inserida no contexto escolar antes dos 2 anos e a instituição deve identificar os sinais que podem conotar dificuldades. Desde pequenos, alguns sinais são perceptíveis como olhar perdido, atraso significativo da comunicação, ausência do apontar. A família precisa entender também que a criança é, sobretudo, criança. Ou seja, ela precisa ferquentar parques, escolas, festas. Muitas vezes, os pais ficam intimidados com uma possível rejeição, mas manter o menino ou menina dentro de casa atrapalha. Quanto mais em sociedade, mais ela vai estar em desenvolvimento.

Como as escolas devem se adaptar para receber uma criança inserida no espectro do autismo?
A criança precisa estar em uma escola regular, que precisa fazer adaptações como faz para um cadeirante, por exemplo. É preciso adaptar a forma de aprendizagem, levar em consideração o estágio de desenvolvimento dessa criança e, em cima disso, montar estratégias de ensino para ela acompanhar. É fundamental se informar para dar a melhor assistência ao aluno. Uma vez que a escola busca trabalhar em cima das aptidões e mediar o relacionamento da criança com outras, ao final do ano ela vai ter tido sucesso no desenvolvimento.

A ausência de estudos de incidência de TEA no Brasil é um entrave no desenvolvimento de novas terapias para os portadores?
Quanto mais a gente tem noção da quantidade, mais melhorias irão existir, maior o acesso a serviços de saúde pública. De um tempo para cá, os autistas tiveram abertura maior dentro da sociedade. O dia 2 de abril representa bem a categoria, onde a gente está conscientizando, falando que existe. Se a gente tivesse uma ideia do número exato de autistas, quem sabe os nossos governantes não conseguiriam fazer trabalhos mais específicos. Hoje, por exemplo, profissionais que trabalham com outras síndromes são colocados para atender autistas, sem levar em consideração as especificidades do espectro.

No fim de 2012, foi sancionada a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Mais de dois anos depois, quais os reflexos dela para a qualidade de vida dos autistas?
A área de serviço à população ainda está muito defasada. Se a gente for procurar em nosso estado, as instituições que atendem a nível público são poucas ou atendem os pacientes junto aos de outras patologias. Do outro lado, um grande ganho foi na questão do direito a ter o tratamento custeado. Percebemos também mais instituições aderindo à causa, assim como maior mobilização. Conseguimos oportunidade para falar do tema de forma simples. Ainda que de forma estereotipada, o tema foi trabalhado em novela nacional. O autismo não está mais enclausurado, tem gente vestindo a camisa, indo à luta por mais benefícios.

Em fevereiro deste ano, uma história envolvendo uma criança autista ganhou muita repercussão nas rede sociais. A mãe do pequeno Glen Buratti fez uma festa de aniversário, mas nenhum colega de classe dele compareceu. Depois de a mãe postar o caso na internet, vários desconhecidos se convidaram para o evento. Há ainda um preconceito grande com o autismo?
Há sim, principalmente quando a gente visita escolas e ouve relatos de mães e pais que não concordam com um autista matriculado na mesma sala do filho, por achar que isso irá atrasar o aprendizado geral. Quando, na verdade, a criança aprende a lidar com o diferente, aprende valores que a sociedade parece estar esquecendo, como a solidariedade. É bom lembrar que hoje ninguém desempenha nada sozinho. Também escutamos muitos relatos de pais em situações sociais, na qual eles pedem desculpa por alguma atitude do filho autista e mesmo assim ouvem reclamações. O essencial para a quebra do preconceito é o entendimento do que essa criança precisa.

Foto: Paulo Paiva/DP/D.A. Press – DIVULGAÇÃO

Matéria originalmente publicada no “Diário de Pernambuco” (todos os direitos reservados), para visualiza-la clique aqui.

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Equipe Somar

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